Kalena Mitrack – Ecos de um Império Silenciado

A história de Kalena Mitrack não está nos livros didáticos. Não há registros em arquivos públicos, tampouco fotografias oficiais. O que existe são memórias carregadas pelo tempo, transmitidas com cautela de geração em geração, como relíquias frágeis guardadas em corações marcados pelo medo e pelo exílio.

Filha de Ivan Mitrack — uma figura de destaque nas estruturas do Império Russo, supostamente próximo ao czar Nicolau II — Kalena nasceu em 1907, em Odessa, uma das joias do Mar Negro. Cresceu sob os últimos suspiros da Rússia imperial, em um mundo prestes a desmoronar.

A Revolução de 1917 trouxe a queda dos Romanovs, o colapso do regime czarista e a ascensão dos bolcheviques. O que foi anunciado como o início de uma nova era, para famílias como a dos Mitrack significou terror, perseguição e exílio. A repressão foi brutal: documentos foram destruídos, nomes apagados, e qualquer associação com a antiga aristocracia se tornou uma sentença de morte.

Kalena Mitrack, profundamente marcada pelo trauma, recusava-se a falar sobre o passado — não por esquecimento, mas por medo. Lembrava-se de Rasputin nos corredores do palácio, de conversas abafadas, de despedidas silenciosas. Tudo se tornou cicatriz, escondida sob décadas de silêncio.

Em 1926, das três irmãs enviadas ao exílio, Kalena encontrou refúgio no Brasil, na cidade de Araruama, onde construiu uma nova vida, criou seus filhos e netos, sem jamais abandonar o peso da memória. Foi já cega, aos 70 e poucos anos, que seu neto Guilherme de Almeida Menezes a conheceu — e dele recebeu mais do que fragmentos de história: herdou o espírito de resistência.

Sabe-se que as outras irmãs, Sofia e Anastácia, seguiram caminhos diferentes: uma foi para os Estados Unidos, a outra, acredita-se, encontrou abrigo em algum país da América Central. Quanto aos pais — Ivan Mitrack e Maria Mitrack (cujo nome original se perdeu em caracteres russos) — acredita-se que tenham sido mortos durante os expurgos revolucionários, vítimas do apagamento sistemático promovido pelo novo regime.

Este é o testemunho de uma linhagem que fugiu não apenas da perseguição, mas do esquecimento. De um povo que sobreviveu à força da história e à crueldade do silenciamento. Este é o grito de uma geração que, mesmo distante de sua terra natal, carrega no sangue a força para lutar por liberdade e memória.

Costumam dizer: “Pelo menos, se sua bisavó não viesse para o Brasil, você não nasceria.”
E eu respondo: “Se ela não viesse, eu não estaria aqui, lutando contra aquilo que um dia destruiu a nossa história: o socialismo.”

Vovó Kalena Mitrack e Vovô Belmonte 
Netos de Vovó Kalena - Minha mãe: Débora (centro) Marques de Almeida, Ricardo e Edva.
Minha avó (2025) Maria Rosa Marques de Almeida ( Filha de vovó Kalena)
Eu, Guilherme de Almeida Menezes e minha neta Flora.

Eu e Minha irmã, Kalena de Almeida Menezes (1992)
Meu Filho Rafael Pereira
Minha filha Ana Carolina 
Logo a direita, meu tio Ricardo, Neto de vovó Kalena e irmão de minha mãe. Da direita para a esquerda: Lucas( filho de Ricardo) , Lenimar Miranda ( Esposa de Ricardo) - Vovó Maria Rosa ( Filha de Kalena Mitrack) Eu e Minha irmã Kalena de Almeida Menezes.
Minhas sobrinhas, filha de Kalena ( Serena e
Lis)

Sofia, tetraneta de Kalena Mitrack - Filha de Kalena de Almeida Menezes ( minha irmã)
da direita para a esquerda (Kauã, Serena, Kalena, Cassiano (marido de Kalena), Lis, Guilherme, Sofia)
minha linda esposa, Anne Magalhães Pinto Pereira